A DIREITA NEOLIBERAL insiste na ideia de que não se pode gastar. O governo, na figura do Lula, diz que gasto é investimento, ao menos quando bem feito. A direita neoliberal diz que se há gasto há empréstimo, e este, então, produz o resultado ruim: a dívida pública cresce. E a direita continua: se a dívida governamental aumenta então o risco de calote (o risco, não o calote) aparece no horizonte, o resultado seria, daí para diante, o natural aumento de juros. Os empresários e investidores (na verdade aplicadores) cobrariam mais alto pela mercadoria que cedem ao governo: dinheiro – essa estranha mercadoria que nunca se entrega, só se aluga. Sendo assim, o Brasil produtivo de Lula acabaria de novo ampliando o Brasil improdutivo, o que vive de juros e de papeis.
Lula diz que dívida não é problema. Mas sabe que é. Todavia, o modo como ele sabe não é o modo sem solução, ou com solução conservadora, como a direita quer. Lula escolheu Haddad exatamente para ele, Lula, poder falar pela esquerda, insistindo no gasto, enquanto Haddad equaciona o que colocou na pauta política para substituir o teto de gastos de Temer, o plano do arcabouço fiscal. Gasta-se 70% da arrecadação, e só isso.
A direita finge que esse plano de Haddad ou não existe ou será desconsiderado. A esquerda, com razão em termos doutrinários, diz que o plano limita demais os gastos com educação, saúde, meio ambiente etc. Lula sabe que pode pedir dinheiro para Haddad em evento público. Haddad não se sente, por causa desse tipo de discurso de Lula, desconfortável. Ele é amigo do Lula. Fiel ao Lula. Mas, então, Lula só faz jogo de retórica? Não! Aí é que entram os técnico-políticos da esquerda, ou digamos, os neodesenvolvimentistas. Galípolo e Guilherme Mello são os homens do governo que mostram que a relação dívida-PIB está prevista para ficar em patamar saudável. E isso por conta do esforço do próprio Haddad de ampliar a arrecadação. Então a direita grita de novo: “arrecadação?!” “Vão aumentar impostos!” Nessa hora não são os economistas de direita que gritam, mas jornalistas e empresários. Mas Lula, Haddad, Galípolo, Mello e todos os economistas de qualquer linha sabem que a tarefa necessária é fazer os que não pagam impostos, pagarem corretamente. O ex-presidente, Bolsonaro, dizia que ele mesmo era um sonegador nato! Gente assim, não pode ter vez.
De resto, direita e esquerda sabem que gastar bem é o necessário. Mas aí, novas divergências surgem: gastar bem para a direita é sanear companhias para privatizar; gastar bem para a esquerda é ampliar políticas públicas. Não há socialismo no horizonte político. Não há capitalismo produtivo no horizonte. E a correlação de forças está mais para os conservadores. Nesse quadro desfavorável, o PT e Lula, o governo enfim, segue pela equação de Haddad, que visa ir por um neoliberalismo mitigado. Eis a política: diminuir os efeitos danosos do capitalismo, pois o capitalismo é um sistema inerentemente em crise e predador. Alguns dizem que isso é social democracia, ainda que fraca, e que é o que se pode fazer e o que Lula já fez nos governos anteriores.
No meio disso tudo há a direita que não consegue comer com garfo e faca. Nela, surfa a Piricrente, a perna inchada de Bolsonaro e Costa Neto, o Boy. Malafia abençoa todos com um chamado do inferno. Ele próprio grita, confirmando que tem parte com o capeta.
Por sua vez, o capeta não está a serviço de ninguém. Nem Deus. Só nós mesmos, todos, é que somos os responsáveis pelo barco. Navegamos junto com Lula e Haddad. Eles na proa, nós todos nas galeras, remando.
Prof. Paulo Ghiraldelli
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Muito bom professor.
Ótima análise. É a minha, só que efetivamente expressa.
A dívida pública é um dos maiores males do país funcionando como artifício para a manutenção da pobreza da maioria de nossa população, contudo beneficiando e enriquecendo, cada vez mais, uma minúscula elite/burguesia nacional. Lutemos pela auditoria cidadã da “dívida pública nacional”.
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